segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Roberto e as várias formas de amar

Eu e Roberto nos conhecemos lá nos idos de 1991, tinhamos cerca de 10/11 anos e calhou de além de morarmos na mesma rua, cairmos na mesma turma.


Ele era engraçado, espirituoso, um verdadeiro "capeta" como diziam os mais velhos, mas aquela alegria contagiava quem chegasse por perto e comigo não foi diferente, tnato que viramos amigos quase que imediatamente.


Logo Roberto passou a frequentar a minha casa e eu a dele. Estava sempre no meu grupo de estudo, até porque ele odiava estudar, ai eu acabava ajudando. Descobrimos que nossos pais se conheciam de longa data, meu pai namorou a melhor amiga da mãe dele na juventude, o que facilitou ainda mais a consolidação da nossa amizade, ou será amor?


Sim, era amor o que sentiamos um pelo outro. Mas não era amor carnal não, mesmo o tempo passando, nos tornando adolescentes, nos amavámos na real pureza do sentimento. Nos defendíamos, brigavamos feito cão e gato e nos divertíamos muito.


A gente tinha uns códigos que só nós sabíamos. Só ele lia a minha agenda; só ele sabia das minhas dores de amor; só eu sabia que ele era apaixonado por ela mas tinha medo de se declarar e parece bobo frente aos meninos mais velhos, enfim, vivíamos um conto quase de fadas.


Até que um dia ELA chegou e começou a levar meu amigo pra longe. Começou meio que de brincadeira, mas dai o lance começou a ficar sério, ele não tinha mais tempo pra mim, pra família. Começou a fazer loucuras, vivia fora de si e não se concentrava mais. Repetiu o ano na escola e ai eu não podia mais estar perto dele pra proteger, mas ele estava lá, sempre com ELA.


Descobri que não podia com ELA e pedi a ele que se afastasse, ele me fez promessas, disse que nunca mais a veria, mas que era mais forte que ele. Até que chegou um dia que ELA começou a obrigá-lo a fazer coisas só pra te-lo mais perto. Entre as inúmeras besteiras, ele conseguiu perder a minha amizade fazendo uma grande bobagem.


Ali, naquele momento ele me trocou por ELA, A COCAÍNA! E tive a certeza que tinha perdido meu grande amigo para sempre. Ele tentou voltar a amizade, mas eu fiquei irredutível, além de magoada, tinha medo das suas atitudes a partir de então e resolvi que o melhor seria me afastar. Isso aconteceu um pouco antes do seu aniversário de 18 anos, que seria comemorado em maio.


Em julho de 1998, Roberto foi preso devido a um assalto a mão armada, como o lance ocorreu com alguém influente, a pena dele, réu primário, com residência fixa, 25 anos de regime fechado. Eis que então a partir daquele dia ele deixava de ser o "meu Beto" e passava a ter alcunha de bandido.


Lá ficou, por quase 10 anos, sabe-se lá de que jeito. Nesse tempo todo pensei nele sempre, quis escrever mas me policiei pq nossa história ficaria no passado, enterrada junto com as minhas lágrimas no dia da palhaçada que ele fez.


Até que em novembro de 2006, encontrei a mãe dele na rua e não resisti e perguntei por ele. Ela toda feliz, disse que ele sairia no inicio de dezembro e definitivo e que teria uma grande festa pra celebrar isso, pediu meu telefone e disse que gostaria da minha presença.


Cheguei em casa, contei pra minha mãe e achei que tava na hora de passar uma borracha e conversar, entender e perdoar.


Mais eis que no dia 06 de dezembro de 2006, recebi a noticia do falecimento dele na cadeia. Morreu de tuberculose, decorrente do HIV+, algo que a família nunca comentou oficialmente.


Chorei copiaosamente. Sentia umas das piores dores da vida. Só sentia remorso por não er dito o que eu quis, ter escrito o que devia, enfim, senti pelos anos que ELA tirou ele de mim.


No dia seguinte fui ao enterro. Chorei mais um monte abraçada a mãe e ao pai que pra mim eram e sempre serão tio e tia. Ela me agradeceu pela amiga-irmã que fui ao filho dela e me disse: Ele nunca esqueceu de você!


E assim foi!
Hoje, 4 anos depois da sua morte, chorei indo pro trabalho ouvindo a nossa música.


Pra mim e pra você RSTC ouvir seja lá onde você esteja.



4 comentários:

Nai disse...

Acho que estou de TPM, porque até chorei e me recuso a escutar a música.
Gostei muito do seu canto e estou te seguindo pra não te perder mais.

Um abraço

disse...

Super obrigada Nai, vou te ver tb...

Mulher Faladeira disse...

Vê essa história é real? Tô chocada!!!
Bjs,

disse...

Oi Dai, é sim. Super verdadeira!